A entorse de tornozelo é uma das lesões musculoesqueléticas mais comuns entre praticantes de atividade física. Acontece com frequência no futebol, na corrida, no vôlei, no basquete e no jiu-jitsu, mas também em situações simples do dia a dia, como pisar em falso em uma calçada irregular. Apesar de ser tratada como uma lesão "simples", a ciência mostra um cenário bem diferente.
Aproximadamente 30 a 40% das pessoas que sofrem uma entorse lateral desenvolvem instabilidade crônica ou apresentam novos episódios de entorse, muitas vezes porque retornam às atividades antes da recuperação completa.
O que acontece quando você torce o tornozelo?
Na maioria dos casos, ocorre uma lesão dos ligamentos da parte lateral do tornozelo, principalmente do ligamento talofibular anterior (ATFL). Além do dano ligamentar, também podem ocorrer:
- Inflamação e edema
- Redução da força muscular
- Diminuição da mobilidade
- Alterações na propriocepção (capacidade do corpo perceber a posição da articulação)
- Prejuízo do controle neuromuscular
Essas alterações explicam por que muitas pessoas continuam "virando o tornozelo" mesmo meses depois da primeira lesão.
O maior erro: parar a fisioterapia quando a dor melhora
É muito comum que a dor diminua já nas primeiras semanas após a lesão. No entanto, a melhora dos sintomas não significa que o tornozelo recuperou sua capacidade de suportar as demandas do esporte.
Pesquisas recentes mostram que muitos atletas retornam às atividades apresentando déficits importantes de força, equilíbrio e controle neuromuscular, o que aumenta significativamente o risco de uma nova entorse.
Sentir-se bem não é o mesmo que estar preparado para voltar ao esporte. A ausência de dor é apenas um dos vários critérios que precisam ser avaliados antes da liberação.
O que realmente reduz o risco de uma nova entorse?
Durante muitos anos, acreditou-se que repouso, gelo e tornozeleiras eram suficientes para tratar a lesão. Hoje sabemos que essas medidas podem aliviar sintomas, mas não substituem uma reabilitação baseada em exercícios. As evidências científicas mostram que programas estruturados de fisioterapia reduzem significativamente o risco de recidiva e melhoram a função do tornozelo.
Entre os componentes mais importantes da reabilitação estão:
- Recuperação da mobilidade
- Fortalecimento dos músculos da perna e do pé
- Treino de equilíbrio e propriocepção
- Exercícios de controle neuromuscular
- Progressão para saltos, mudanças de direção e movimentos específicos do esporte
O treino precisa parecer com o esporte
Um dos achados mais interessantes das revisões recentes é que muitos protocolos tradicionais ainda utilizam apenas exercícios simples e previsíveis. No entanto, as entorses normalmente acontecem em movimentos rápidos, inesperados e com mudanças bruscas de direção.
Por isso, a fase final da reabilitação deve incluir exercícios que simulem situações reais do esporte, preparando o atleta para responder a estímulos imprevisíveis: mudanças de direção, aterrissagens e desacelerações.
Como saber se está na hora de voltar ao esporte?
Atualmente, a decisão não deve ser baseada apenas no tempo desde a lesão. O consenso internacional conhecido como PAASS Framework recomenda avaliar cinco domínios antes da liberação para o retorno esportivo:
Pain (Dor)
Ausência ou mínimo desconforto durante a prática esportiva.
Ankle impairments (Função do tornozelo)
Amplitude de movimento, força e resistência muscular.
Athlete perception (Percepção do atleta)
Confiança, sensação de estabilidade e preparo psicológico.
Sensorimotor control (Controle sensório-motor)
Equilíbrio e propriocepção.
Sport performance (Desempenho esportivo)
Capacidade de correr, saltar, mudar de direção e realizar gestos específicos da modalidade.
Essa abordagem reduz o risco de liberar o atleta apenas porque "já passou o tempo esperado".
Como a fisioterapia pode ajudar?
Na Stronger Fisioterapia, acreditamos que cada atleta deve ser avaliado de forma individual. Durante a avaliação, observamos não apenas a dor, mas também força muscular, mobilidade, equilíbrio, controle neuromuscular e capacidade funcional. A partir desses dados, elaboramos um plano de reabilitação progressivo e específico para o esporte praticado.
Nosso objetivo não é apenas aliviar os sintomas, mas devolver segurança para que você volte a treinar e competir com menor risco de uma nova lesão.
A entorse de tornozelo não deve ser encarada como uma lesão "simples". Embora a dor costume diminuir rapidamente, a recuperação completa depende da restauração da força, do equilíbrio, da propriocepção e do controle neuromuscular. Retornar ao esporte apenas porque o tornozelo "não dói mais" aumenta significativamente a chance de novas lesões.
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Referências científicas
- Jiang H, Mei Q, Wang Y, et al. Towards the strategies of return to sport after lateral ankle sprain: a systematic review. Annals of Medicine. 2025.
- Doherty C, Bleakley C, Hertel J, Caulfield B, Ryan J, Delahunt E. Return to sport decisions after an acute lateral ankle sprain injury: introducing the PAASS framework — an international multidisciplinary consensus. Br J Sports Med. 2021.
- Alshammari A, Bestwick-Stevenson T, Pearson RG, et al. Criteria-based phased rehabilitation framework for lateral ankle sprain: systematic review, qualitative study and expert Delphi consensus. BMJ Open Sport Exerc Med. 2026.
- Doherty C, Bleakley C, Delahunt E, Holden S. Exercise-based rehabilitation reduces reinjury following acute lateral ankle sprain: a systematic review update with meta-analysis. PLOS ONE. 2022.
- Martin RL, Davenport TE, Fraser JJ, et al. Clinical Practice Guideline: Lateral Ankle Ligament Sprains Revision 2021. J Orthop Sports Phys Ther. 2021. (Referenciada pelo consenso PAASS e pelas revisões sistemáticas recentes.)